A ampla natureza deste país é algo magnetizante e que definitivamente fez-me perceber que também fui concebido para viver no meio selvagem. Viver o profundo nomadismo foi, sem dúvida alguma, uma realização simplificada do meu ser. Cravei os pés na terra e deixei-os texturar-se, conforme caminhei pelo campo, montanhas e deserto. A agua com que lavei a cara foi a mesma que me matou a sede e gelou o corpo. Vi a chuva em fúria aproximar-se, os relâmpagos a rasgar o horizonte em metade e, deitado, contei os segundos até o trovão estremecer-me o peito. Sabia bem sentir a natureza e ter a noção da sua força. Acordei numa poça de agua após três horas debaixo de trovoada, numa tenda improvisada. Desfiz em palha, estrume de cavalo num pequeno monte, descasquei pedaços de arvore seca e soprei até as primeiras labaredas quebrarem as tonalidades frias. O fogo fez-me perceber como se encontra de novo o conforto.

Manter-me quente, estar protegido, encontrar comida, viver entre cavalos, falcões, camelos, cabras, ovelhas, yaks, ratos, aranhas, escaravelhos, lagartos, gafanhotos, moscas, mosquitos e tantos outros animais cujo nome não sei, é uma das melhores sensações de liberdade que já vivi. Sentir o bater das patas do cavalo no solo em simultâneo com o meu coração. “Txuu… txuu!” grito eu, para fazermos este manto verde a correr. O vento bate-nos mais forte à medida que a velocidade aumenta. Não me posso sentir mais livre… Estar descalço e ver os bichos escalarem o meu corpo à procura de calor ou da agua do meu suor. Ficar horas a ver o por do sol enquanto a areia do deserto se entranha na minha roupa e pele. Observar o correr da agua que espelha a vida livre de um nomada que me diz repetidamente: “Não se fazem planos porque não se sabe o futuro.”

Deixo-vos o meu manual para se ser feliz na Mongolia:

  • não dizer mal das estradas, porque só ficamos mais chateados,
  • não perguntar quais são os planos, porque ninguém sabe o futuro!
  • saber jogar vôlei, porque ajuda a fazer amigos mongóis
  • não comprar cervejas nas quartas-feiras, pois nesse dia, na maior parte da Mongólia, é proibido beber bebidas alcoólicas,
  • não fazer necessidades junto às estradas, porque é uma ofensa para os Nomads locais,
  • gostar muito de carne de carneiro, pois vamos comer tanta…
  • saber fazer uma fogueira e não ser maricas com a água fria
  • não ter medo de animais …de todo o tipo!
  • nunca esquecer de carregar as baterias da máquina fotográfica
  • ser generoso e verdadeiro
  • ser aventureiro e livre
  • esquecer o conforto e a privacidade

A Mongólia é, para já, o país que mais me fez ver a minha “zona de conforto” e tornar a vida mais simples. Essa descoberta vai agora comigo para a China, mais descontraído e com a confirmação que não preciso ter planos… o futuro ninguém sabe!


Luís Simões

Portuguese traveler and illustrator on a world sketching tour since 2012. Leaving comfort to enjoy a new life with the company of backpacks and sketchbooks, made me build this website and share it with all of you.

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