Letonia – 30 agosto 2012
De partida para Riga

Aquela hora tudo dorme. A mochila, preparada de véspera, espera só o essencial que utilizo para dormir, escova de dentes e os cabos que dão a última carga na tecnologia. Penso duas vezes se tenho tudo comigo antes de meter pé na estrada, voltar atrás na viagem custa dinheiro.
Eu e as luzes de transito. Sozinhos, reparamos como é do caraças ver o nascer do dia ainda em Tallinn. São 5:45 da manhã e naquele momento só queria que vocês vissem o quente ao longe e nas minhas costas a fresca noite a despedir-se. Foram 15 minutos a pé até à estação. Bilhete na mão, comprado no dia anterior não fosse a coisa correr mal, de partida para Riga.

Dicas

À saída do autocarro deparo-me com um dia bestial de calor! Altura perfeita para tirar o blusão. Nesse momento recebo uma mensagem a dizer que tinha sitio onde dormir. Boas notícias! O problema é que só me ia encontrar com ela ao fim do dia e são 10 da manhã, tenho que me ver livre das malas. Aqui deixo uma dica, que até hoje resulta sempre, metam tudo o que seja roupa e acessórios inúteis na mochila grande e coloquem tudo o que é de valor e que daria uma trabalheira do caraças se vos roubassem ou perdessem, na mochila que anda convosco. Feita a divisão, procurem um hotel com alguma qualidade, nada de hostels ou hotéis finórios. Tenham o que eu chamo olho vivo e atenção à posição onde o hotel está. Entrem no hotel escolhido e, gentilmente, expliquem que estão de passagem na cidade e perguntem se podem guardar a mochila no hotel. Até hoje nunca tive uma resposta negativa, mas já reparei que há muita gente a fazer o mesmo, por isso, fartos de aturar mochileiros, acho que está para breve começarem a dizer que não. Já sabem, um truque económico, mas se não ficam descansados com esta solução, optem por gastar alguns euros em cacifos nas estações de comboios.

Feito isto, a segunda aventura é ir ao super-mercado. Aqui, ou somos poliglotas e sabemos o que as embalagens dizem, ou então, temos mesmo que arriscar naquilo que os olhos “comem”. Mas, segunda dica que vos posso dar é, sejam inteligentes com o que compram. Mais uma vez estamos a falar em compras económicas para um orçamento económico, portanto comparem os preços. Não ser esquisito com a comida, é uma grande vantagem para se transitar de países e continentes, mas é preciso ter cuidados, caso contrário podemos ter problemas. Por norma compro sempre fruta variada, cenouras, pão de mistura, queijo fatiado, salame/mortadela, iogurtes, leite, frutos secos e um pacote de seriais. Os seriais, ou o “snack SOS”, como eu lhe chamo, são para as alturas em que me apetece algo doce e já comi tudo o que tinha na mochila. Açúcar igual a energia! Desta forma mantenho o estômago entretido até voltar a ter comida. Por opção, não compro água em países com boa água da torneira.

Outra dica. Façam uma lista, nos vários idiomas por onde vão viajar, com os alimentos principais para o vosso dia-a-dia. Façam-no em tamanho pequeno e plastifiquem-no pois vão usar com regularidade e convém manter-se legível. Essa vossa cábula, será uma ferramenta extraordinária para meterem conversa e pedirem ajuda aos locais. Isso ou façam sketches, como eu! Sejam criativos, quanto mais imaginativos forem, mais reacções recebem do outro lado.

Riga

Riga, Latvia

O sol batia nos edifícios e mudava-lhes a cor. Andei pelo centro a escolher o que queria desenhar. Como sempre começo com uma folha nova e vou escrevendo o que mais gosto. Crio o meu próprio mapa da cidade com as minhas experiências, até porque, sozinho ninguém espera pelas minhas anotações. Músicos à esquina, esforçam-se por mostrar o seu talento. A abundante oferta leva à embriagues auditiva. O que poderia ter alguma qualidade artística, passa a ser apenas um produto de entretenimento, desinibido, nada criativo e com um prazo de validade definido pelo som das moedas a caírem.

Riga guarda consigo o pitoresco. A timidez de falar inglês correcto. Uma parte do sistema, habitantes e igrejas russas. Uma moeda fora da comunidade europeia. Um idioma mutante e misturado pelo passado. Uma simplicidade cativante que faz querer voltar com mais tempo.

Fiquei em casa de uma rapariga, cujo o apartamento era muito pequeno. Como tal ofereceu-me todo o espaço com a condição de cuidar do gato e comer um bolo delicioso feito por ela. Deu-me a chave de casa e explicou-me as coisas essenciais para me poder desenrascar sozinho. Obrigado foi pouco para agradecer a sua amabilidade. Ela e o seu namorado levaram-me a conhecer partes da cidade e locais, que nunca conheceria sozinho. Numa noite fomos a uma festa de lançamento de uma rádio. Provavelmente, e pela maneira como me filavam, seria o único fora de tom. Se há coisa que se topa à distancia são os estrangeiros, especialmente se se puserem a desenhar no meio de uma festa. Foi o caso.

Riga, Latvia

Tenho descoberto que o desenho é um meio de conversa sem palavras. Recebo várias reacções sempre que desenho pessoas.
Faço-o destemido, olhos nos olhos e de sorriso na cara. Na verdade se os desenho é porque os quero conhecer melhor, mas sem palavras. Se houver conversa é feita posteriormente. Há quem se sinta invadido, há quem não goste do meu olhar e deve haver quem me ache um inimigo, porque fogem de mim assim que se sentem observadas. Mas das que se piram, não reza a história. As que me refiro são as que querem ver, querem ser surpreendidas pelo acaso, mais abertas de espirito e capazes de se entregarem ao desgosto de se verem retratadas de maneira surreal. Esse surrealismo ou, diria eu, vontade de fazer à minha maneira, já me deu caras menos satisfeitas. Mas apreciação, é algo que nos devemos por à prova, sem medos que os comentários negativos nos castrem a criatividade ou evolução. É importante sermos os primeiros a criticar o nosso trabalho para nos esforçarmos mais no próximo desenho. Mas aquele primeiro contacto de poucos segundos até perceberem que as estou a desenhar, define em absoluto a alma da personagem que estou a criar. Depois é uma troca de olhares e vibrações que pode ou não dar em conversas, normalmente rápidas. E ainda bem porque tenho que seguir caminho.

Riga, Latvia

Estou sentado nos degraus de uma porta. Podia usar o meu banco, mas gosto do contacto com os edifícios, leva-me absorver o frio, rigidez e desconforto. A meu ver torna tudo mais humano. Mas tudo isso estava prestes a terminar. Um homem de cara feia e enrugada fala-me com tom grave num dialecto que o meu conhecimento não descodificou. Porém a mensagem transmitia alguma austeridade e dava a entender que estaria a cometer algum crime. Pedi se me podia decifrar a mensagem em inglês: «Isto é a embaixada Russa» e apontou para o degrau, disse o tipo mal encarado. Ui, que agora é que foi a bonita. Então pode-se lá estar de cu lapado nos degraus de um edifício cheio de arquivos russos altamente secretos. «Trata-se já disso!» disse eu. Puxei do meu banco e a menos de 50cm sentei-me. «Pronto, a embaixada está a salvo agora!» terminei. Bem sei que me andei para fora de pé, com a minha atitude, mas o tipo estava a pedi-las. É claro que rebentou de indignação por dentro, mas para parolo, parolo e meio e ali já nada podia fazer.

Riga, Latvia


Luís Simões

Portuguese traveler and illustrator on a world sketching tour since 2012. Leaving comfort to enjoy a new life with the company of backpacks and sketchbooks, made me build this website and share it with all of you.

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