Dia 1

Huaraz – Acampamento à saída da estrada principal

• Distância Percorrida 44 km

Day 1

Huaraz – Camping off the main road

• Distance traveled 44 km

Depois do acidente que tive em Huascaran, tive mais de um mês em recuperação do ombro. As dores melhoraram, mas o ombro esse, nunca mais voltou ao seu estado normal. Quem sabe um dia volte mas a viagem essa, tinha que continuar, ainda que não estando perfeito. A oportunidade de viajar com Ratna e Patrick surgiu por mera casualidade. Depois de terem feito já quase 3 anos em viagem de bicicleta desde o Alasca até a Patagónia e depois de vários meses a segui-lo no Facebook, acabámos por nos conhecer em Huaraz e ter o mesmo plano de rota: a grande divisão do Peru.

O primeiro dia foi de “aquecimento” das pernas para nós e de os conhecermos. A viagem foi toda feita pela estrada principal, com alguns carros pelo caminho e alguma inclinação. Nessa noite ficámos às “portas” do Parque Nacional de Huascaran, que dava acesso ao Glaciar Pastoruri, também conhecido pelas altas arvores chamadas Puya Raimondi.

After the accident I had in Huascaran, I had more than a month recovering from the shoulder. The pain has improved, but the shoulder has never returned to its normal state. Maybe one day my shoulder will come back but this trip had to continue, even though it wasn’t perfect. The opportunity to travel with Ratna and Patrick came by mere chance. After having already done almost 3 years in a bicycle tour, from Alaska to Patagonia and after several months following it on Facebook, we ended up getting to know each other in Huaraz and having the same route plan: the Peru Great Divide.

The first day was a “warmup” for us and to get to know them. The trip was all on the main road, with some cars on the way and some inclination. That night we were at the “gates” of the Huascaran National Park, which gave access to Pastoruri Glacier, also known by the Puya Raimondi trees.

Pedimos ajuda a uma senhora que tinha um restaurante para nos abrigarmos do vento. Deixaram-nos dormir no “curral” dos ovelhas, porcos e vacas, debaixo de um teto de zinco e quatro paredes feitas de barro e pedra. Montamos a tenda num chão de cimento mal acabado e, com algum azar, um dos porcos mijou-nos o plástico que proteje a tenda do chão.

Aqui vão dormir que nem Jesus! – disse-nos uma das mulheres.

Rapidamente percebi que não estava a brincar, quando disse que íamos dormir como Jesus. Não pelo quente e conforto que deve ser dormir nas palhas, mas sim pela quantidade de gado que existia há nossa volta.

We asked for help from a lady who had a restaurant and shelter. We were allowed to sleep in the “corral” of the sheep, pigs, and cows, under a zinc roof and four walls made of clay and stone. We set the tent on a poorly finished cement floor and, with some misfortune, one of the pigs pissed at the plastic that protects the tent from the floor.

Here you will sleep like Jesus! – one of the women told us.

I quickly realized that she wasn’t kidding when I said we were going to sleep like Jesus. Not because of the warmth and comfort that should be sleeping in the hays, but rather because of the amount of animals that existed around us.

Dia 2

Acampamento à saída da estrada principal – Acampamento a 4400m

• Distância Percorrida 24 km
• Distância total 68 km

Day 2

Camping outside the main road – Camping at 4400m

• Distance traveled 24 km
• Total distance 68 km

A entrada para o Parque Nacional de Huascaran faz-se saindo da estrada pavimentada e entrando para a estrada de terra batida. Daí já não se sai até chegarmos a Huallanca. O terrenos seco e com pedras dificulta a volta em bicicleta, mas aumenta o previlégio de estar em lugares únicos, andar por caminhos alternativos e estar mais dentro da natureza. Pena era a quantidade de autocarros e carros turísticos que passavam por nós em direcção ao glaciar de Pastoruri e que levantavam tremendo pó. Entre algumas paragens fiz dois desenhos do primeiro vislumbre de neve e claro, das àrvores Puya Raimondi.

The entrance to the Huascaran National Park is made by leaving the paved road and entering the dirt road. From there we will not leave that kind of road until we reach almost Huallanca. The dry and rocky terrain makes it difficult to ride the bicycle, but it increases the privilege of being in unique places, walking on alternative paths and being more within nature. Pity was the number of buses and tourist cars that passed by us towards the Pastoruri Glacier, that raised tremendous dust. Between some stops I made two drawings of the first glimpse of snow and of course the Puya Raimondi trees.

Depois de tanto tempo parados claro que a nossa condição física estava uma lástima. Tanto a nível de aclimatização como de pernas. Em contrapartida, os nossos amigos, estavam bem melhor que nós e por isso pedalavam mais depressa. Fizemos 22 quilómetros em que subimos 650m e onde acabámos por acampar aos 4400m de altitude. Aqui começava a nossa aprendizagem de como sobreviver às baixas temperaturas. Nessa noite preparámos o jantar fora da tenda, cheios de frio e ao vento. Mas esse seria provavelmente dos últimos jantares fora da tenda. Depressa percebemos que tínhamos que aprender com os nossos amigos que, às 6 da noite e depois de montar a tenda, recolhem-se e já ninguém os vê. Preparam tudo dentro da tenda e mantêm-se quentes. Estranhamos tal hábito de não conviver, nem partilhar o momento de comer em conjunto, mas a verdade é que com o frio que estava, não fazia sentido. Começámos a aprender que primeiro há que encontrar o conforto e depois se der então saímos da “toca”.

After so long stopped it was clear that our physical condition was bad. Both acclimatization and legs. On the other hand, our friends were much better than us, so they pedaled faster. We made 22 kilometers and we climbed 650m and we ended up camping at 4400m altitude. Here began our learning of how to survive the low temperatures. On that night we prepared dinner outside the tent, in the cold and wind. But that would probably be the last dinner outside the tent. We quickly realized that we had to learn from our friends that at 6 pm and after setting up the tent, they were inside their tent and no one else would see them. They prepare everything inside the tent and keep themselves warm. We did not like this habit of not existing, nor sharing the moment of eating together, but the truth is that with the cold that was, it didn’t make sense. We began to learn that comfort comes first and then if we can, we get out of the “hole”.

Dia 3

Acampamento a 4400m – Lagoa San Hilarion

• Distância Percorrida 18 km
• Distância total 86 km

Day 3

Camping at 4400m – Lagoa San Hilarion

• Distance traveled 18 km
• Total distance 86 km

Cedo percebemos como os nossos amigos se organizam em viagem, pois nessa manhã decidiram seguir o mais rápido possível para chegarem a tempo de fazer uma caminhada pelo glaciar. Nós, por falta de ritmo e pouca condição física, acabámos por nos demorar mais que eles a arrumar tudo e seguir viagem. Assim, eles seguiram com uma hora de avanço de nós. A estrada não permitia velocidades muito rápidas, o máximo que conseguíamos pedalar era entre 8 a 9 quilómetros por hora. Isto nas melhores alturas pois normalmente andávamos a 4/5 kmh.

Soon we realized how our friends are organizing their trip because on that morning they decided to go as fast as possible to arrive in time to take a walk on the glacier. We, for lack of rhythm and poor physical condition, ended up taking longer to pack everything and go on. So they followed with an hour’s advance from us. The road did not allow very fast speeds, the maximum we could pedal was between 8 and 9 kilometers per hour. This in the best times since we normally cycled at 4/5 km / h.

Dos 4400m onde ficámos na noite anterior tínhamos mais 400m pela frente, num clima seco e difícil de respirar e com inúmeros cotovelos de estrada para fazer. A anisa foi ficando para trás e eu acabei por me aproximar a Ratna e Patrick na subida até aos 4800m. Praticamente chegámos os 3 ao mesmo tempo e a anisa uns 50 minutos depois. Durante esse tempo sentei-me numa rocha e desenhei a vista dessa “conquista” do topo da montanha. Um conquista que desejo sempre celebrar com a Anisa, mesmo que chegue mais tarde que eu. A diferença de ritmos é o que mais nos tem dificultado a viagem a nível emocional. Não é fácil para nenhum de nós, abandonar o outro. Mas sendo a minha bicicleta maior que a da Anisa e eu ter mais força muscular que ela, só nos resta aceitar e ter paciência que nos iremos encontrar mais à frente. E nisso a bicicleta tem-nos ajudado a entender que temos muitas montanhas pessoais para conquistar e aprender.

Decidimos continuar sem ir ao Glaciar de Pastoruri. Seria uma caminhada longa e depois de 2 meses parados, estávamos enferrujados. O melhor mesmo era continuar devagar e tentar ganhar um pouco de terreno em relação aos nossos amigos, uma vez que eles estavam a explorar o glaciar. Fizemos 5 quilómetros de descida e começámos novamente a subir lentamente. Porém, as nossas pernas já não davam mais e por volta das 4 da tarde decidimos acampar junto à Lagoa San Hilarion. Mais uma vez utilizámos o recurso à aplicação iOverlander para saber se haveria alguma informação de um lugar de paragem. Nesse dia não vimos mais os nossos amigos.

From the 4400m where we stayed the night before we had another 400m ahead, in a dry and difficult air to breathe and with numerous switchbacks to do. Anisa was coming behind and I ended up getting closer to Ratna and Patrick on the climb up to 4800m. We practically reached the 3 at the same time and Anisa around 50 minutes later. During this time I sat on a rock and drew a view of this “conquest” from the top of the mountain. An achievement I always want to celebrate with Anisa, even if she arrives later than I do. The difference in rhythms has made this travel difficult for us on an emotional level. It is not easy for either of us to abandon the other. But since my bike is bigger than Anisa’s and I have more muscular strength than her, we can only accept and have the patience that we will find each other later. The bike has been helping us to understand that we have many personal mountains to conquer and learn.

We decided to continue without going to Pastoruri Glacier. It would be a long walk and after 2 months stopped, we were rusty. The best thing was to continue slowly and try to gain some ground in relation to our friends since they were exploring the glacier. We made 5 kilometers of descent and started up again slowly. However, our legs couldn’t give more and around 4 in the afternoon we decided to camp next to the San Hilarion Lagoon. Once again we used the iOverlander application to find out if there was any information about a camping place. That day we did not see our friends anymore.

Dia 4

Lagoa San Hilarion – Huallanca

• Distância Percorrida 40 km
• Distância total 126 km

Day 4

San Hilarion Lagoon – Huallanca

• Distance traveled 24 km
• Total distance 68 km

Depois de uma noite tranquila, onde não se ouvia um único ruído de carros ou pessoas, preparámos tudo e deixámos o nosso lugar de acampamento. Qual a nossa surpresa quando vimos lá no fundo da estrada, os nossos amigos a chegar. Celebrámos o reencontro e já não nos separamos mais. A segunda passagem pelo ponto mais alto entre Huaraz e Huallanca seria aos 4,860m de altitude. Esse era o nosso objectivo para esse dia. De vez em quando, a chuva fazia questão de nos pregar partidas, mas na verdade nunca chegou a chover até à nossa chegada a Huallanca.

À saída do Parque Nacional de Pastoruri, a suja estrada cheia pedras, deu lugar à estrada limpa e asfaltada. Depois de 2 dias e meio em chão turbulento e empoeirado, aquele novo chão parecia manteiga. Sobretudo porque eram 27km a descer e as rodas deslizavam a uma velocidade de mais de 50 kmh. Que feliz sensação depois de tantos quilómetros a passo de caracol!

Quando chegámos a Huallanca, sentimos a necessidade de descansar 2 noites, tomar um banho e comer bem. A primeira etapa estava concluída e sem dúvida que tínhamos aprendido várias coisas novas. Mas esta viagem foi apenas o começo de uma grande aventura que iria mudar para sempre a nossa forma de viajar em bicicleta! Em breve coloco as próximas etapas.

After a quiet night where we could not hear a single noise of cars or people, we prepared everything and left our camping place. We were surprised when we saw, at the end of the road, our friends coming. We celebrated the reunion and we kept on cycling. The second pass through the highest point between Huaraz and Huallanca would be at 4,860m altitude and that was our goal for that day. From time to time the rain made us preach games, but it never really rained until we arrived in Huallanca.

At the exit of Pastoruri National Park, the dirt road full of stones, gave way to the clean and paved road. After two and a half days in the turbulent and dusty ground, that new ground looked like butter. Especially because there were 27km down and the wheels slid at a speed of over 50km. What a happy feeling after so many miles at a snail’s pace!

When we arrived at Huallanca, we felt the need to rest 2 nights, take a shower and eat well. The first step was completed and no doubt we had learned several new things. But this trip was just the beginning of a great adventure that would forever change our way of traveling by bike! Soon I will put the next travels.


Luís Simões

Portuguese traveler and illustrator on a world sketching tour since 2012. Leaving comfort to enjoy a new life with the company of backpacks and sketchbooks, made me build this website and share it with all of you.

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