Dia 1

Cachora – Santa Rosa Baja

  • Descida 1500 m
  • Subida 56 0m
  • Distância Percorrida 12 km
  • Tempo 8h40

Em Cachora apanhámos um carro que nos levou até Capuliyoc. Aí demos início à caminhada que tínhamos em mente de ser por 4 dias. O princípio desde logo é fabuloso. Em segundo plano somos brindados com montanhas cobertas de neve e depois todo o precipitoso vale que nos permitia ter uma vista infinita do trajecto. A primeira pequena paragem que fizemos foi no “birdwatching point” que fica depois dos iniciais zigue-zagues. A descida é algo acentuada e temos que travar bastante o corpo. Sobretudo porque vamos carregados com as mochilas.

Continuámos a caminhada e o primeiro camping que existe é o Cocamansana. Tem refrescos e na nossa opinião é um dos lugares de todo o percurso, com a vista mais espectacular para o pôr-do-sol. Infelizmente para nós não estávamos em momento de terminar o dia e por isso prosseguimos até Chiquisca. Porém, um pouco antes de chegarmos a Anisa não conseguia caminhar. Devido às descidas inclinadas, criou bolhas em praticamente todos os dedos dos pés. Esta lesão veio modificar tudo o que tínhamos previsto para Choquequirao. Sasha, um dos amigos com quem viajamos em bicicleta e que também estava a fazer o caminho connosco, veio para nos ajudar. Eu carreguei a mochila da Anisa e ele carregou a Anisa às costas. Sasha, é definitivamente um “guerreiro” e um tipo com um grande espírito de entre-ajuda. Quando chegámos ao segundo camping chamado Chiquisca, a Anisa mal conseguia colocar os pés no chão. Haviam muitos mosquitos e tínhamos feito 7.4 km de descida. Ainda falavam mais 9.5 km até chegarmos ao fim da descida. Almoçámos e aqui começou a mudança. A Anisa sugere que continuemos e que a deixemos ficar no camping porque não consegue caminhar. O desespero era tal que, conscientemente soube perceber que por mais que quisesse não iria conseguir chegar a Choquequirao. Senti o coração apertado de a abandonar e seguir um caminho que ambos queríamos fazer juntos. Despedimo-nos emocionados e incerto, segui com Sasha e Maria.

Os quilómetros seguintes, o corpo foi mas a cabeça ficou com a sensação de estar a fazer algo errado. Primeiro, porque o meu joelho direito já tinha dado sinal que em breve ia ter problemas. Segundo, porque eu sabia que Sasha e Maria têm um ritmo acelerado em relação ao meu. Por isso, era uma questão de tempo até eu começar a fraquejar.

Saímos do acampamento Chiquisca já passava das 13h. Quando chegámos ao ponto mais baixo junto ao acampamento Playa Rosalina, naquela que foi a “descida para o inferno” sob sol durante todo o tempo, cometo o erro de não comprar água. Atravesso a ponte deixando para trás a minha única hipótese de descansar um pouco e refrescar-me. Quem sabe até de ficar nesse mesmo acampamento. Naquele momento, tinha apenas em mente, ganhar um pouco de terreno a Sasha e Maria para ver se nos mantínhamos juntos, pois eles tinham ficado a banhar-se no rio. Invejei esse momento de prazer, mas o meu joelho já não me permitia fazer nada que fosse extra o caminho que tinha pela frente.

Demorou pouco até eles me apanharem. A minha condição piorou pois do outro lado da montanha o calor era ainda maior. Desidratação. Digo-lhes que não se predam e sugiro que sigam o seu ritmo, haveríamos de nos ver depois. Seguiram e eu sentei-me numa rocha. Comi e bebi o resto da água que tinha. Descanso um pouco. Volto a colocar a mochila às costas e deparo-me com Sasha no topo de uma das curvas da estrada a olhar para mim. Senti-o preocupado. A sua preocupação fez-me perceber o quão mal eu deveria estar. Pede-me que lhe passe a minha mochila e que eu seguisse com menos carga até ao proximo camping. Assim fazemos. Agora percebem o que disse de Sasha uns parágrafos anteriores. Cansados e mais devagar, Sasha passa as minhas coisas para a Maria após uma longa caminhada. Sinto-me terrivelmente mal por tamanho esforço que estavam a fazer. Mas estava completamente debil e não tinha outra hipótese. Após 560 m de subida em apenas 2.6 km, finalmente chegamos ao camping Santa Rosa. Desesperado peço a água mais cara que alguma vez paguei no Peru: 13 soles – 3.40 euros – por uma garrafa de 2.5 litros (preço normal é de 3.5 soles – 0.90 euros). Mas também foram os mais bem empregues 13 soles que dei no Peru! Aqui acampei e decidi recuperar forças para o dia seguinte. Sasha e Maria seguiram caminho e abandonam-me. Era algo que já tinha calculado. Quando deixei a Anisa, sabia que eu nunca iria fazer parte da viagem de Sasha e Maria e que era uma questão de tempo até eles desaparecerem outra vez. Já tinha acontecido assim antes quando estávamos na mesma estrada em bicicleta, não iria mudar neste caminho. O cansaço era tal que depois de montar a tenda, tomei um banho de água fria, deitei-me e adormeci por uma hora.

A zona de camping Santa Rosa era muito simples. Um espaço com relva mal nivelado a um preço de 5 soles por tenda. Junto a mim tinha galinhas, um gato, um rádio ruidosamente mal regulado e a dona Eufemia, que volta e meia falava alto. Não foi o melhor lugar para descansar mas era o que havia… O dia acaba com um prato a 8 soles – 2 euros – de massa com feijão, cenoura, salada de alface e queijo ralado por cima. Às 20h deito-me e reparo como fazia muito tempo que não estava “longe” da Anisa. Ridículo ou não, a intensidade da viagem faz-nos perder a noção do que temos constantemente ao nosso lado e naquele momento, sozinho e cansado, bateram às portas do sono, as primeiras saudades.

Dia 2

Santa Rosa Baja – Marampata

  • Descida 0 m
  • Subida 830 0m
  • Distância Percorrida 3.7 km
  • Tempo 1:45

Marampata – Choquequirao

  • Descida 100 m
  • Subida 260 m
  • Distância Percorrida 5.6 km
  • Tempo: 2h

Ruinas de Choquequirao

  • Tempo – 5h

Choquequirao – Marampata

  • Tempo – 2h
  • Tempo total – 10h45

Às 5 da manhã a dona Eufemia já falava Quechua em alto e bom som. Foi o “alarme” para saltar da cama, ferver água em lenha e tomar o pequeno-almoço. Desarmei a tenda e meti as sandálias a caminho de Choquequirao. Na noite anterior tinha tomado tiamina (vitamina B) e com o descanso, as dores no joelho, ainda que estando presentes, eram menores. No início da subida, um americano fez-me companhia até à cascada Uchuherta. Ele e os vários mosquitos que existem por todo o caminho. Daí em diante segui sozinho com o meu “queijado” de cana e um joelho de um velho de 90 anos. Quando cheguei ao primeiro camping em Marampata, reparo que Sasha e Maria tinham acampado aí e foram mais leves para Choquequirao. Tinha pensado levar tudo até às ruínas e acampar lá, mas pareceu-me mais sensato, deixar o peso maior e levar apenas o essencial. Até por que depois das quase 2 horas de subida já tinha o joelho outra vez a dar sinal.

A entrada nas ruínas custaram 60 soles – 15.50 euros e o caminho até Choquequirao é interminável. Os mais rápidos podem fazer em 1h30m mas eu levei 2 horas. Há inúmeras subidas e descidas íngremes com muitas pedras, e com o joelho a pedir socorro cada vez que descia, o meu objectivo era apenas chegar e presenciar as ditas ruínas Incas. Existem vários relatos noutros websites que é recomendável um dia para visitar as ruínas. Não porque hajam muitas ruínas, mas sim porque as distancias entre cada sector, são efectivamente grandes. Na verdade eu estive dentro das ruínas entre as 11h e as 16h e foi mais do que suficiente para explorar sozinho. Talvez com um guia que nos dê muitas explicações se demore mais tempo, mas não foi o meu caso. Dentro das ruínas encontrei-me outra vez com Sasha e Maria. O ambiente nas ruínas é de pura tranquilidade e a partir das 13h não vimos uma única pessoa. As paisagens à volta são de uma imensidão incrível e é realmente fascinante o lugar onde os Incas construíram a cidade de Choquequirao. Antes de me ir embora fiz um pequeno desenho das ruínas, que podem clicar e saberem um pouco mais sobre o desenho, a razão pela qual escolhi desenhá-lo e as técnicas que utilizei.

Sketch das ruínas de Choquequirao

Por fim, demos umas voltas juntos pelas ruínas e regressámos ao acampamento. Jantámos uma massa com molho de tomate, preparada por Sasha e Maria e, já de barriga cheia, rodeados de estrelas, foi hora de dormir num novo lugar.

Dia 3

Marampata – Chiquisca

  • Descida 1400 m
  • Subida 400 m
  • Distância Percorrida 8.4 km
  • Tempo: 3h00

Chiquisca – Capuliyoc

  • Descida 50m
  • Subida 1100 m
  • Distância Percorrida 7.4 km
  • Tempo: 3h30
  • Tempo total – 6h30

Das duas, esta foi a melhor noite em termos de silencio, o único problema foi o relvado estar outra vez inclinado e durante ia resvalando. A manhã desta vez despertou úmida e nublada o que de certa forma seria bom para caminhar. Quando estamos a tomar o pequeno-almoço, vejo um pastor passar com as suas mulas de transporte meio carregadas. Corro e pergunto-lhes:

Bom dia! Será que me podia fazer um grande favor? Preciso que me levem a mochila para Capuliyoc.

Sim, posso levar.

E quanto custará?

50 solsitos… – 13 euros

Está bem. – digo eu admirado pois normalmente cobram 70!

Capuliyoc fica no fim de todo o caminho que tinha que fazer. Este investimento significava deixar de carregar 10 quilos aos ombros e deixar de exigir ao meu joelho esse excesso de peso. Sasha, voltou-me a ajudar a meter tudo na mochila e deixar tudo nas mãos do senhor Beltrán, o dono das mulas. Pedi-lhe que enviasse uma mensagem à Anisa, pois iria passar por ela primeiro que eu.

“Enviei as minhas coisas através deste homem. Da-lhe as tuas coisas porque ele ira traze-las até ao topo da montanha. Já paguei. Espero conseguir ver-te hoje mas dói-me o joelho, por isso não tenho a certeza. Beijinhos”

Às 8h da manhã segui caminho. A minha motivação era o facto de estar em direcção à Anisa e poder partilhar estes dias que estivemos separados. Para quem vive uma vida “normal”, dois dias longe um do outro parece normal, mas para quem vive esta vida, acreditem que sabe a bastante tempo. Até porque havia várias coisas para partilhar para além de uma vida mais rotineira de quem vive “normalmente” a sua vida.

A ideia era conseguir fazer os 1400 m de descida antes do pico do calor que seria por volta das 11h. O meu grande desafio era o joelho. A verdade é que uma cabeça na direcção certa, nada a faz parar e às 11h estava a chegar aos braços da Anisa. O coração bate mais forte nestas alturas. A pequena distância, que nos é tão difícil manter nesta viagem, fez-nos entender e valorizar o que temos ao nosso lado.

Após o reencontro em Chiquisca, cozinhámos para o almoço as massas e as salsichas que tínhamos levado. Durante aqueles dias, a Anisa manteve parte das coisas que trazíamos e que seriam apenas peso para mim se eu as levasse. Ela conta-me o estado das suas bolhas nos pés, as picadas de mosquitos e como se entretinha com os turistas que pelo acampamento passavam. Aproveitei o facto de ela ter um quarto e fiz uma “siesta” de uma hora. Descansado, já fora da hora de maior calor e depois de Anisa também ter enviado as suas coisas, damos inicio à nossa caminhada de regresso com apenas os nossos “queijados”, água, snacks e máquina fotográfica. Juntos entre gemidos meus e dela, vou-lhe contando os pormenores da viagem que fiz. Ou deveria eu dizer da “aventura” que foi.

Às 17h30 chegámos ao fim da nossa caminhada e recolhemos as nossas mochilas. Aí jantámos e apanhámos um carro novamente para Cachora, chegando ao hotel por volta das 20h. Sasha e Maria já estavam no hotel pois tinham arrancado primeiro que nós. Seguimos direitos para a cama onde finalmente iriamos dar descanso ao corpo.