Até ao Cabo Norte
22 Julho 2012

Até ao Cabo Norte é sempre a subir com pequenas paragens mas cada uma com o seu encanto. As paisagens são autênticos postais de tirar a respiração. A estrada, apesar de boa, é uma serpente em alcatrão cheia de subidas e descidas. O calor e sol de verão foi-se embora em Bergen e quanto mais para norte, mais baixo anda o termómetro. Mas nem por isso tira-me das ruas para desenhar, o frio obriga-me a ser rápido com a caneta até ao limite da mão congelar e os olhos encherem-se de lágrimas. Tenho que pintar com menos cores, porque o tempo que demoram a secar é tão longo que não há espaço para grandes pormenores. A chuva miudinha faz-me companhia na maior parte dos sketches, preciso de folhas e canetas à prova de água
Norway

Chegar ao Circulo Árctico na Noruega é como chegar à Serra da Estrela. Existem auto-caravanas por todo o lado, carros, motas, bicicletas e claro turistas a pisar a coordenada 66º 33′. E eu sou mais um na multidão mas o único tolo a sketchar. No meio de um vento horrivelmente, frio e chuva, coloco em desenho o que estou a viver. O desenho para mim é a minha felicidade e quando o faço é como ter uma nova feliz experiência. E esta marcou-me de tal forma que deixei de sentir os dedos. Assim tento não repetir desenhos por mais que não fique satisfeito com o resultado final. Até porque há tanto para desenhar que é uma perda de tempo repetir sketchs em momentos que não se repetem.
O lema é “se estás vivo, desenha!” mesmo que te gelem as mãos!

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É fácil encontrar parques gratuitos para se pernoitar junto ao mar no meio das enormes montanhas. Em Saltdal conheci o pescador norueguês Roger num desses lugares. Estava ali há uma hora e ainda só tinha pescado 1 pequeno bacalhau:

“Eles não gostam deste anzol, vou mudar para este.” – e troca de um laranja para um prateado.
O anzol são amostras de peixe que ao brilharem chamam atenção do peixe e este vai atrás do “engodo”.
Ao primeiro lançamento de carreto apanha outro:
“já devia ter trocado de anzol há mais tempo!”

Com um pequeno canivete arranja os dois bacalhaus de 20cm cada:
“tens um saco para os meteres?” pergunta-me.
“Sim, espera vou buscar.”
Metemos os bacalhaus já escalados e sem cabeça para dentro do saco:
“Agora assas o peixe como se fossem sardinhas com um pouco de sal e bom proveito!” – diz-me.
“São para mim?!” – digo eu satisfeito!
“São claro. Já tenho o congelador cheio de peixes. Tenho pena de só ter apanhado dois, se fossem cinco levavas os cinco!”

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Os Samis vivam nas florestas, bem próximos das renas. Hoje exploram o negócio turístico a vender produtos de renas, sopas, peles e chifres, tudo serve. De frente para uma dessas tendas turísticas, estico o banco e começo a contar a historia em riscos. Sossegado estava até se juntar a mim o pequeno anafado Sami. Bola de futebol de baixo do braço direito, rosado que nem um saloio e dentes todos encavalitados sai-se com a seguinte frase: «É aqui que eu apanho o autocarro para a minha escola!» Mais uma vez senti que um desenho só termina depois de um comentário destes. Modificou toda a minha imagem da vazia e abandonada paragem de autocarros.

A convite e ainda bem, entrei na tenda, o frio ali fora já se estava a entranhar no corpo. À roda da fogueira, juntamente com com um panelão de sopa de rena, estão três homens e duas mulheres. Não percebo o que dizem, mas discutem algo sério. Sento-me com eles e continuo a historia Sami. O lume abraça-me. Aquece-me e enche-me de cheiro a fumo. A curiosidade mutua deixou a timidez de parte, mostro o sketch a uma mulher e começamos a falar inglês. Repentinamente pede-me para esperar um pouco para ir ao carro. Quando volta, traz um maquina fotográfica artilhada e pergunta-me: «Deixas-me tirar uma foto aos teus sketches? Estamos a tratar da organização do festival anual Sami e gostava de usar a teu desenho para colocar no cartaz.»

Estava contada a historia.

 

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O sol da meia noite não se é um simples pôr-do-sol.
Podemos assistir aos mais incríveis pôr-do-sol, mas são raras as vezes que nos lembramos com rigor desses momentos. Há qualquer coisa entre o terminar do dia e o começo da noite que nos atira para a nostalgia sem camisa e quando os primeiros arrepios aparecem, seguimos caminho fora para o próximo dia.

À margem disto está o sol da meia noite. É outro sol. Enquanto outros demoram minutos, este sol, desce sem pressas. Desce tão lento que despejamos a nostalgia e saudade de uma vida, à espera de o ver pela linha do horizonte. Como este sol não se chega a deitar, as despedidas são dadas com boas-vindas, misturam-se sensações e sem darmos por isso já estamos no dia seguinte.

 

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Sempre adorei fazer anos rodeado de amigos. Festejarmos a existência da amizade que perdura durante anos. Ter os melhores amigos à minha volta, foi sempre assim que fiz por entrar na minha nova idade. Mas este projecto veio para mudar muitas coisas na minha vida e esse dia, foi uma delas. Em contrapartida ofereceu-me a chegada ao Cabo Norte, ainda que, sem um postal ilustrado para ver.

Chovia tanto que cinco minutos na rua foram suficientes para congelar as minhas mãos, enquanto tentava registar o momento em foto. O que me leva a ficar com a melhor sensação do Cabo Norte, foi ter aqui chegado na companhia dos meus pais. O trilho que percorremos muitas vezes sem saber onde ia dar, as escolhas feitas até aqui chegar, o que aprendemos juntos e separados. Uma parte da viagem pela Europa terminava aqui e o corpo, a sorrir por dentro, pede agora um breve descanso pois a montanha fez-se com muitas etapas.


Luís Simões

Portuguese traveler and illustrator on a world sketching tour since 2012. Leaving comfort to enjoy a new life with the company of backpacks and sketchbooks, made me build this website and share it with all of you.

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