Ainda não eram 6 da manhã, toca o despertador. Avizinhava-se um dia e meio de viagem até Tallinn. Despeço-me, com os olhos cheios de água, da miúda que me modificou o coração em Junho deste ano.

 

De barco para Tallinn
Estonia – 28 Agosto 2012

As últimas palavras da Li são: “vemo-nos em Paris!”. Um aperto, uma solidão a que o corpo não sabe reagir. O dia permitiu repensar no passado, nos bons e menos bons momentos que vivemos juntos. Estava sozinho outra vez, por minha conta. Tive que largar as emoções pois havia um longo caminho pela frente. De Helsingborg a Estocolmo são 3 horas e tal, vamos lá fazer um desenho das mamas desta loira!

É estranho estar duas vezes no mesmo sitio em tão pouco tempo. Já o tinha sentido quando cheguei a Helsingborg e agora aqui, nesta mesma zona onde estive 2 horas a desenhar, acontece o mesmo. São nestes momentos que sinto a vontade de seguir para o próximo destino. Talvez por já ter cumprido a minha passagem por aqui. Não sei ao certo, mas lá vou eu em direcção do barco para Tallinn. O meu lado sovina leva-me a caminhar 1 hora e tal de mochilas no lombo só para não gastar meia dúzia de cronas suecas que ainda me restam na carteira. Louvada poupança, que deu para uma sandocha antes de embarcar no maior barco que já andei. Oito andares com tudo o que se possa imaginar.

Finalmente estava no típico cruzeiro que nunca tinha feito. Mas desiludi-me, estava à espera de ver mais pessoal jovem em grandes cavaqueiras e o que encontrei foram pequenos grupos de malta sénior e alguns netos. Mas nem tudo estava perdido, até porque estava a partilhar uma cabina de quatro beliches.

Calhou-me dois estonios e um russo como companheiros de quarto. Mas quem mais se afeiçoou a mim foi o Ragnar. E lá fomos, fazendo companhia um ao outro, durante toda a viagem. Arqueólogo e amante de história, fala-me das origens e curiosidades da cidade. Fazemos umas paragens pelas zonas populares do cruzeiro, ao que Ragnar, habituado a fazer estas viagens, avisa-me: «não esperes por grandes animações, quanto muito só encontras os teus avós a beber copos.» E não é que estava certo… porém, no ultimo andar, com vista para as inúmeras ilhas à volta de Estocolmo, assistimos ao pôr do sol.

Demos um salto ao salão de espectáculos e ao karaoke, deu para rir com os números arrojados de dança, proporcionados pelos passageiros a bordo. Da-nos a fome e, Ragnar, convida-me a comer fatias de queijo e salame com pão de mistura escuro. Bem-ditas palavras, livraram-me de passar larica, já não tinha nem dinheiro nem comida, comigo.

Dormi que nem uma pedra. Parecia que estava em casa, no meu quarto. Não pelos 3 marmanjos que estavam na cabina, mas porque o quarto era escuro como breu!

 

Estonia, Tallin

«Terra à vista!» digo eu de olhos postos em Tallinn. Ragnar apressa-se a explicar-me o devo visitar durante a minha estadia. «Devias fazer uma panorâmica com a tua maquina, fica brutal!» diz-me um tipo que passa por nós. «Sou músico e venho a Tallinn porque amo esta cidade. A minha eis namorada é daqui e já conheço isto há 5 anos. Adoro vir aqui. Agora tenho uma miúda sueca que conheci ontem, é brutal. Estou curioso para ver o que vou sentir quando vir a minha eis namorada. Mas eu sou músico conhecem aquela música: lá lá lálálá.. lilólé ?!» olhamos um para
o outro, eu e o Ragnar, e perante tanto speed sai-nos um simpático: «não estamos a ver bem qual é…»

Sai a correr, largando tudo das mãos e diz: «esperem um minuto volto já!».
eu: caneco, o que foi isto pá?
Ragnar: sei lá… este barco é uma surpresa constante.

Desvairado, lá chega o tipo de guitarra na mão, uma sacada de seriais, um pacote de sumo de laranja e um cigarro no canto da boca, pronto acender. Ali mesmo, com um frio de rachar, toca uma das músicas do seu álbum. No fim oferece uns folhetos impressos com mais informações da banda e começa a falar… «mas o tipo não se cala?!» penso eu.

Ragnar despede-se porque tem gente à espera e eu fico com o músico a tentar perceber porque raio nos cruzamos nesta vida. Saímos do barco. Finalmente, descobre uma caixa de fósforos. Acende o resistente cigarro que há minutos vive pendurado na boca. Relaxado pela nicotina diz-me: «desculpa se estou muito acelerado hoje, não dormi nada no barco e já bebi 5 cafés.» Faz sentido. «deixa lá isso, desde que estejas bem, haja quem tenha coisas para dizer.» A pé, seguimos os dois para a cidade. Vamos lá!

Tallinn

 

Estonia, Tallin

 

Estonia, Tallinn

 

Apesar do sol, os dias já estão bem mais frios. Vou ficar em casa de Rainu, que conheci através do cauchsurfing. Soube do meu projecto e ofereceu-se para me alojar. Rainu vive com o namorado num pequeno apartamento e foram bastantes sociáveis dentro do pouco tempo que convivemos. Da casa deles até ao centro ainda eram 20 minutos a pé, mas fazia-se bem. Era bom para ir acordando aos poucos, uma vez que tinha que zarpar de casa à hora que eles zarpavam. Portanto, às 9 horas da manhã já estava de cadernos na mão pronto para explorar Tallinn.

Estonia, Tallin

 

Estonia, Tallinn

 

A sensação que tive, quando passei na zona história da cidade, foi de entrar numa cidade medieval. Também é verdade, que as fatiotas das apetitosas miúdas a vender amêndoas do mais variado sabor, ajudavam à imaginação. Passei aqui dois fantásticos dias com sol e amigos. Ainda tive direito a uma entrevista no jornal mais antigo da Estónia, enfim, os melhores planos são os que não se programam e surgem expontâneos. O que mais me marcou ao passar esta pequena cidade foram as pequenas ruas, que me levavam a explorar todos os recantos. Fiquei sempre com a sensação que havia sempre mais uma rua por descobrir se fosse por outros caminhos.

Vale a pena desfrutar da comida e procurar com alguma preocupação por sítios onde jantar de forma económica. Outro momento saboroso, foi a companhia das minhas amigas Finlandesas, que curiosamente, também estavam pela cidade de férias. Fiquei apaixonado por aquela língua, finlandesa, e pelo jeito sincero de ver a vida. Agora, mais próximos, aprofundamos outras conversas. Há amigos que ficam sempre com o nosso humilde sorriso passe o tempo que passar.

…volta e meia perco os sentidos. Parecem que tenho uma quebra de tensão e se não me seguram caio. Não é a primeira vez que me acontece. Há uns largos anos quando passeie de ilha em ilha na Grécia, quando voltei a sensação foi igual. Mas agora são as 14 horas de cruzeiro a fazerem efeito.

 

Estonia, Tallin


Luís Simões

Portuguese traveler and illustrator on a world sketching tour since 2012. Leaving comfort to enjoy a new life with the company of backpacks and sketchbooks, made me build this website and share it with all of you.

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