Nunca tinha pedalado nada assim, nem nunca me tinha imaginado a acordar às 4 da manhã para fazer 103km. A verdade é que fizemos e que nos deu várias sensações e dores. Era a nossa sexta descida pela Colômbia e a segunda maior distância que iríamos percorrer. Iam ser mais de 100 quilómetros a pedalar em estrada com várias subidas, algumas descidas e principalmente longas rectas.

O nosso objectivo era ir desde Puerto Colombia a Cartagena em bicicleta. José, o nosso amigo ciclista de Ciénaga, disse-nos para não fazermos mais de que 100 quilómetros por dia e agora percebo bem porquê. Mas a nossa anfitriã Liliana de Puerto Colombia disse-nos que muitos ciclistas fazem directo no mesmo dia. Entre as duas opiniões e facto de não haver nenhum sítio para ficarmos durante o trajecto, fez-me decidir que o melhor seria mesmo fazer o trajecto completo.

E assim foi, saímos às 5 da manhã ainda bem de noite e começamos a dar ao pedal. O corpo ainda meio a dormir, reclama o desconforto do guiador e do assento, mas vai-se sentindo contentinho com o fresco da madrugada. Passam por nós uns ciclistas com bicicletas de estrada para competição, com uns focos de luz que iluminavam a estrada por completo e a pedalar bem rápido. É nesse momento que percebo o quanto a minha lanterna tem uma luz ridícula. Creio que uma noite de lua cheia iluminava mais que o que ali levo. Passam mais ciclistas e alguns abrandam o ritmo para conhecerem os “estrangeiros”. As nossas bicicletas pesam por volta de 30 kilos e mesmo que quiséssemos, não tínhamos cabedal para ir as 25/30 km por hora como eles vão.

Fizemos os primeiros 50 quilometros a puxar 30 quilos e com várias subidas de alguns quilómetros, quase sem paragens e apenas com 1 litro de água. Quase porque a Anisa teve uma paragem forçada para fazer um xixi selvagem!! Ao fim de 50 quilómetros e já quase 3 horas a pedalar, faltam praticamente outros tantos, e aí é que começa a luta com a dor. O corpo começa aos poucos a encontrar formas de dizer ao cérebro que já chega e que o que estas a fazer já não tem assim tanta piada. Fizemos mais 20 quilómetros com 2 paragens e com mais dores ao nível do assento (ossos da bacia), mãos/pulso e joelhos. Depois começamos a parar mais vezes quase de 10 em 10 quilómetros pois as sacanas das subidas pareciam intermináveis.

A nossa primeira longa viagem tinha sido quase há uma semana, quando fizemos Ciénaga para Barranquilla (79km) em estrada plana e pouco ou nenhum vento. Foi sem dúvida cansativo mas não foi nada doloroso em comparação com esta.

Após o momento de conflito entre o cérebro a querer ver-se livre da dor, vem a resignação e a superação muscular e claro, uns certos gritos para ajudar a subir!! Cada quilometro ganha um significado especial, e com o sol a dar-nos nas costas e cada vez mais quente, bebemos mais água e comemos “cucas” (uns bolos feitos de panela que são um autentico conforto).

Os perigos de longas distâncias na Colômbia são as montanhas, a desidratação e o sol que a partir das 10 da manhã fica infernal. O cansaço reduz os níveis de atenção e disponibilidade para reagirmos correctamente. Esta foi sem dúvida a mais difícil volta que fizemos e cheira-me que isto foi só o começo de muitas duras voltas que vamos fazer.


Luís Simões

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