De toda a Noruega que já conheço, existem montanhas gigantes e verdes. Verdes porque estou a viajar em pleno verão e a neve que normalmente as cobre já derreteu.

Ainda que, em alguns lugares, existam bons bocados de neve. Vale a pena libertar o puto que está sempre pronto a sair, fazer umas bolas de neve e atirar aos meus pais. Com cuidado porque é uma luta desigual, mas ainda estão para as curvas. Voltemos às montanhas. Bergen tem duas, bem altas, com pequenas casas plantadas até quase ao topo. Na zona ribeirinha é onde tudo acontece. No mercado, o peixe é vendido em diferentes idiomas, sempre a um preço inflacionado. Regalam-se os olhos e o olfacto com o cheiro abundante a mar. O dia apresenta-se azul e o sol abraça-nos como se fosse uma t-shirt quente de dois números abaixo. Existe um funicular desde onde estou que leva qualquer um por 80 kronas, perto de 10 euros, ao topo da montanha.

Eu, de bicicleta na mão, uma mochila carregada de sketchbooks, aguarelas e afins, olho lá para o alto da montanha e num rasgo de ignorância começo a subir. Tudo parece inclinado e cansativo, mas uma vez colocado o objectivo não se abandona a missão. Os olhos vão saboreando a minha lenta subida, enquanto o sol começa a descer e a deixar o seu rasto alaranjado. Qualquer pensamento é ruidoso perante o silencio que me acompanha há meia hora. Oiço o escorrer dos pingos de suor que me caiem pelo peito, atravessando lentamente os pelos. A pedalar, luto contra os quilómetros que tenho pela frente, penso em quem mais gosto. O fio que trago ao pescoço, recorda-me o mesmo bater de coração acelerado que aconteceu em Helsingborg, embora por motivos diferentes. Agarro-o e digo: «Vê o que os meus olhos recebem e voa como estas livres gaivotas em direcção aos últimos raios de sol. Um dia, quando estivermos novamente juntos, contas-me o que sentiste com vontade de partilhar. Morro de saudades de tudo o que me deste e sonhamos juntos. Soubesse eu que para te beijar bastava subir esta montanha e já a tinha feito mal chegara.”

Já levo 40 minutos de caminho e ainda me faltam outros 30, segundo a previsão de quem desce a montanha e passa por mim. A fadiga obriga-me a ser determinado e não olho para trás. O horizonte é a minha janela. O consolo de atingir um objectivo é melhor que qualquer dor de pernas ou peso nas costas. Observo a quantidade de lesmas que já tentaram e tentam atravessar a estrada que percorro. Atiram-se ao incerto do futuro, com a enorme coragem de vencer. Algumas, começam agora a longa jornada de horas para passarem apenas 2 metros de alcatrão. Outras, com menos sorte, não sobreviveram às mortíferas rodas dos ciclistas que descem esta estrada a uma velocidade tal, que não lhes dá tempo para recuar ou desviar. Esta é uma viagem solitária, longa e importante nas suas vidas. Chegar à outra margem da floresta, significa para estas lesmas castanhas e compridas, uma grande conquista pessoal e uma fonte de inspiração para a geração vindoura. São raras as que atingem com sucesso o objectivo pretendido mas na altura de partir esquecem os medos e lá vão elas. Amigas lesmas, não se preocupem comigo, venho em paz; temos tanto em comum que ficaríamos dias a conversar.

Continuo a pedalar pela serpenteada estrada até ao topo. O sol já está praticamente escondido. O ultimo troço é feito de respiração alterada e olhos embebidos em água. O corpo despeja toda a adrenalina acumulada e promove uma reacção emocional descontrolada, quando finalmente atinjo uma das melhores vistas panorâmicas desta viagem.


Luís Simões

Portuguese traveler and illustrator on a world sketching tour since 2012. Leaving comfort to enjoy a new life with the company of backpacks and sketchbooks, made me build this website and share it with all of you.

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