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Hong Kong

By June 19, 2014
hong kong

Cheguei a Hong Kong no dia 9 de Janeiro, com apenas um contacto no meu email a dizer que me ia esperar ao aeroporto quando chegasse. Passaram-se cinco meses e uma dúzia de dias desde esse então e… obrigado cidade infernal deste e tiraste mais do que alguma vez pensei. Após uma semana, graças a uma noticia no jornal South China Morning Post sobre a minha viagem, tinha um convite no email para trabalhar nuns quantos projectos de ilustração. Este era o meu aspecto quando fui a reunião.

Não fazia a mínima ideia do que se tratava e estava longe do espirito laboral. disseram-me para aguardar um bocado. Peguei nos cadernos e comecei a pintar alguns sketches que precisavam de uns toques. O que mais me lembro da reunião são as gigantes janelas que davam vista para toda a cidade. Não prestei patavina ao que me dizia, porque tinha os olhos postos naquela que veio a ser a minha primeira panorâmica de Hong Kong. Sei que disse

“…que grande desenho que isto dava. Então o que querem de mim…?”



Ficou claro. Tinha perdido todo o charme para entrevistas de trabalho e nestes últimos dois anos, a vida tinha-me transformado num efectivo lobo. A preocupação deles não era saber se eu era capaz de fazer o que eles queriam mas se o projecto me iria dar alguma motivação. Acho que estavam com medo que me pirasse a meio ou assim. Achei piada e acabei por dizer que sim, sem perceber muito bem o que queria. Apresentaram-me a equipa e mostraram-me uma cadeira e um computador. Ate me deu um arrepio no corpo. Parecia que me estavam a meter de quarentena e eu aceitar.

Começava na segunda-feira. Tinha o fim-de-semana para digerir a situação. Lembro-me que saí do edifício e perguntei-me:

“…mas estas parvo ou que? o que é que estas a fazer?”

sentia-me agoniado. Houve, até hoje, duas coisas que me fizeram parar a viagem. A primeira foi um amor. Não resultou após de 5 meses. Outra era este trabalho. Também não resultou. Ao fim de um mês, já andava a ver vídeos de malta a viajar e lugares que queria conhecer… mas eu sou casmurro, obriguei-me a perceber quem sou se parar por um tempo indeterminado. Passei 2 meses a dormir em sofás até receber o primeiro dinheiro do trabalho. Fazia o mesmo que fazia quando viajava. Conhecia pessoas na rua, desenhava antes de ir para o trabalho e deixava-me perder por HK. Falava com A a Z e deram-me o nome de “jesus” até cortar a barba.

Aos poucos fui-me moldando ao estilo de vida de HK. Conheci um pequeno grupo de tugas que vivem cá e acabei por ir parar a casa de um casal que tinha um quarto a mais. A ideia era ficar por uns 18 dias mas ainda cá estou. Num apartamento pequeno couberam 3 pessoas, que no fundo partilham o mesmo estilo de vida e uma forma simples de a apreciar. Ao Joao e à Madalena, agradeço-lhes o conforto de uma casa portuguesa, um abraço de irmãos e o desejo de estarmos juntos num outro lugar qualquer do mundo.

Os dias, meses foram passando e mais confuso ficava com esta nova vida. O trabalho era divertido, simples e dinâmico. Trabalhava em computador e fazia ilustrações com valor comercial. Os desenhos mantinham-me vivo enquanto HK mantinha-me frenético e mulherengo. Sim, qualquer tipo que não tenha olhos em bico e seja branco, é totalmente seduzido pela “febre amarela” (definição pelo gosto asiático) ou pela facilidade como todos se entregam sem compromissos de uma relação futura.

O fútil e o vazio ficava assim mais perto de alcançar. Foram poucos os momentos em que estive realmente sozinho. Hong Kong parecia-me a cidade ideal para se viver uma vida de exageros com tudo a que se tem direito e que, a todo o custo, me queria tornar em mais um expatriado sedentário. Se por um lado tinha noção do que se estava a passar, por outro deixava-me levar: “Vive a vida puto. Aproveita, aprende e diverte-te, quando saíres daqui logo mudas o estilo de vida!” …assim me deixava levar.

Para fugir a tudo isso e ligar-me as comunidades locais, juntei-me ao grupo de Urban Sketchers e passei a ter companhia para desenhar com regularidade. Confesso que nunca estive num grupo tão activo e entusiasmado para desenhar. Conheci o Rob, duas semanas depois de ter chegado. Acabou por ser um grande irmão para a vida. Desenhávamos juntos a torto e a direito e tivemos conversas de horas. Influenciou-me a utilizar o iPad para desenhar e a ver a vida de outra forma. Estaremos para sempre ligados, estando perto ou longe.

De um dia para o outro estava a dar treinos à Selecção Nacional de Corfebol de HK. Envolvi-me com um grupo jovens atletas prontos aprender. Deu-me imenso prazer e trabalho para mete-los a pensar o desporto, em vez de serem apenas uns rápidos mini-robots. Soube bem voltar a pegar num desporto que me preencheu a vida durante 10 anos.

A vida estava preenchida caraças! Todos me diziam:

“Já não sais de cá! Pareces um menino de cidade agora.”

Eu sorria mas não me identificava com nenhuma das verdades. Foi aí que o problema apareceu. Comecei a rejeitar essa pessoa que ia ficando. Praticamente tudo o que julgava estar a construir em HK, perdia o sentido no dia seguinte. Num dia morria, noutro dia renascia. Mas nem sempre renascia bem e nesses dias muita merda passava pela alma. Tudo neste país anda depressa. Depressa demais. Cabia-me ter a lucidez de reduzir essa velocidade.

Para combater a ausência da viagem, comecei a desenhar cada vez mais. com o sentido de me tornar num produto, na vez de consumidor. Era a única forma de me sentir ligado ao passado-recente. Desafiei-me a criar um caderno só com panorâmicas de Hong Kong e logo ver o que fazer com isso. Cada desenho demorava em media 4 a 6 horas. Aprofundei elementos como: contar uma história e usar menos linhas para retratar as minhas experiências.

Entre trabalho, corfebol, desenhos e namoradas, surge um convite irrecusável. Ir a Espanha, Zaragoza em finais de Junho para participar num encontro de desenhadores viajantes. Foi como se alguém finalmente me tivesse a dizer “esta na hora de sair de Hong Kong”. E assim aceitei, siga lá a Espanha, para rever os amigos e a família.

Cinco meses e meio em Hong Kong deram para entender e desentender muitas coisas. Cada vez sei menos quem sou à medida que vejo o que vou fazendo e aceitando. Quer esteja parado ou em viagem. Quero explorar, quero viver, quero ir onde ainda não fui, quero-me dar sem ficar. Tenho um “quero” demasiado vivo dentro de mim, para me deixar ficar com o que já aprendi. Seria tão fácil dizer o que não gosto ou o que não me deixa feliz, mas quem se limita ao que sabe, não se abre ao que o futuro lhe reserva. Então que seja o que o destino quiser. Supostamente e segundo o projecto, já estou um ano atrasado para fazer os 5 anos de world sketching tour. Cada vez que penso nisso da-me vontade de rir pelo que ainda me falta conhecer e por certo perder.

Até já Espanha!

China
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  • Clara Amorim

    Valeu a pena a espera…!
    Obrigada pela partilha de mais de uma estadia inesquecível!!!!
    Zaragoça is waiting…
    Toda a felicidade do mundo para ti…!
    Grande beijinho.

  • Luis Brantuas

    Força Luís, a prosa parece um desenho dos seus, muito atractiva e cativante!

    Felicidades para a viagem até Espanha, e bom retorno ao seu périplo.

    Abraço,

    LB

  • até que enfim 🙂 já não vinha há algum tempo, mas já agora 😀 estamos em julho, não aconteceu mais nada?
    NÃO ACREDITO 🙂 🙂
    Boa viagem e muitos desenhos, conheça o mundo e divulgue pelos que não tem essa coragem, eu agradeço

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