Hong Kong

Written by Luis on . Posted in Asia, WST

Cheguei a Hong Kong no dia 9 de Janeiro, com apenas um contacto no meu email a dizer que me ia esperar ao aeroporto quando chegasse. Passaram-se cinco meses e uma dúzia de dias desde esse então e… obrigado cidade infernal deste e tiraste mais do que alguma vez pensei. Após uma semana, graças a uma noticia no jornal South China Morning Post sobre a minha viagem, tinha um convite no email para trabalhar nuns quantos projectos de ilustração. Este era o meu aspecto quando fui a reunião.

Não fazia a mínima ideia do que se tratava e estava longe do espirito laboral. disseram-me para aguardar um bocado. Peguei nos cadernos e comecei a pintar alguns sketches que precisavam de uns toques. O que mais me lembro da reunião são as gigantes janelas que davam vista para toda a cidade. Não prestei patavina ao que me dizia, porque tinha os olhos postos naquela que veio a ser a minha primeira panorâmica de Hong Kong. Sei que disse “…que grande desenho que isto dava. Então o que querem de mim…?”

Ficou claro. Tinha perdido todo o charme para entrevistas de trabalho e nestes últimos dois anos, a vida tinha-me transformado num efectivo lobo. A preocupação deles não era saber se eu era capaz de fazer o que eles queriam mas se o projecto me iria dar alguma motivação. Acho que estavam com medo que me pirasse a meio ou assim. Achei piada e acabei por dizer que sim, sem perceber muito bem o que queria. Apresentaram-me a equipa e mostraram-me uma cadeira e um computador. Ate me deu um arrepio no corpo. Parecia que me estavam a meter de quarentena e eu aceitar.

Começava na segunda-feira. Tinha o fim-de-semana para digerir a situação. Lembro-me que saí do edifício e perguntei-me: “…mas estas parvo ou que? o que é que estas a fazer?” sentia-me agoniado. Houve, até hoje, duas coisas que me fizeram parar a viagem. A primeira foi um amor. Não resultou após de 5 meses. Outra era este trabalho. Também não resultou. Ao fim de um mês, já andava a ver vídeos de malta a viajar e lugares que queria conhecer… mas eu sou casmurro, obriguei-me a perceber quem sou se parar por um tempo indeterminado. Passei 2 meses a dormir em sofás até receber o primeiro dinheiro do trabalho. Fazia o mesmo que fazia quando viajava. Conhecia pessoas na rua, desenhava antes de ir para o trabalho e deixava-me perder por HK. Falava com A a Z e deram-me o nome de “jesus” até cortar a barba. Aos poucos fui-me moldando ao estilo de vida de HK. Conheci um pequeno grupo de tugas que vivem cá e acabei por ir parar a casa de um casal que tinha um quarto a mais. A ideia era ficar por uns 18 dias mas ainda cá estou. Num apartamento pequeno couberam 3 pessoas, que no fundo partilham o mesmo estilo de vida e uma forma simples de a apreciar. Ao Joao e à Madalena, agradeço-lhes o conforto de uma casa portuguesa, um abraço de irmãos e o desejo de estarmos juntos num outro lugar qualquer do mundo.

Os dias, meses foram passando e mais confuso ficava com esta nova vida. O trabalho era divertido, simples e dinâmico. Trabalhava em computador e fazia ilustrações com valor comercial. Os desenhos mantinham-me vivo enquanto HK mantinha-me frenético e mulherengo. Sim, qualquer tipo que não tenha olhos em bico e seja branco, é totalmente seduzido pela “febre amarela” (definição pelo gosto asiático) ou pela facilidade como todos se entregam sem compromissos de uma relação futura. O fútil e o vazio ficava assim mais perto de alcançar. Foram poucos os momentos em que estive realmente sozinho. Hong Kong parecia-me a cidade ideal para se viver uma vida de exageros com tudo a que se tem direito e que, a todo o custo, me queria tornar em mais um expatriado sedentário. Se por um lado tinha noção do que se estava a passar, por outro deixava-me levar: “Vive a vida puto. Aproveita, aprende e diverte-te, quando saíres daqui logo mudas o estilo de vida!” …assim me deixava levar.

Para fugir a tudo isso e ligar-me as comunidades locais, juntei-me ao grupo de Urban Sketchers e passei a ter companhia para desenhar com regularidade. Confesso que nunca estive num grupo tão activo e entusiasmado para desenhar. Conheci o Rob, duas semanas depois de ter chegado. Acabou por ser um grande irmão para a vida. Desenhávamos juntos a torto e a direito e tivemos conversas de horas. Influenciou-me a utilizar o ipad para desenhar e a ver a vida de outra forma. Estaremos para sempre ligados, estando perto ou longe.
De um dia para o outro estava a dar treinos à Selecção Nacional de Corfebol de HK. Envolvi-me com um grupo jovens atletas prontos aprender. Deu-me imenso prazer e trabalho para mete-los a pensar o desporto, em vez de serem apenas uns rápidos mini-robots. Soube bem voltar a pegar num desporto que me preencheu a vida durante 10 anos.

A vida estava preenchida caraças! Todos me dizia “Já não sais de cá! Pareces um menino de cidade agora.” Eu sorria mas não me identificava com nenhuma das verdades. Foi aí que o problema apareceu. Comecei a rejeitar essa pessoa que ia ficando. Praticamente tudo o que julgava estar a construir em HK, perdia o sentido no dia seguinte. Num dia morria, noutro dia renascia. Mas nem sempre renascia bem e nesses dias muita merda passava pela alma. Tudo neste país anda depressa. Depressa demais. Cabia-me ter a lucidez de reduzir essa velocidade. Para combater a ausência da viagem, comecei a desenhar cada vez mais. com o sentido de me tornar num produto, na vez de consumidor. Era a única forma de me sentir ligado ao passado-recente. Desafiei-me a criar um caderno só com panorâmicas de Hong Kong e logo ver o que fazer com isso. Cada desenho demorava em media 4 a 6 horas. Aprofundei elementos como: contar uma história, usar menos linhas para retratar as minhas experiências.

Entre trabalho, corfebol, desenhos, namoradas surge um convite irrecusável. Ir a Espanha, Zaragoza em finais de Junho para participar num encontro de desenhadores viajantes. Foi como se alguém finalmente me tivesse a dizer “esta na hora de sair de Hong Kong”. E assim aceitei, siga lá a Espanha, para rever os amigos e a família.

Cinco meses e meio em Hong Kong deram para entender e desentender muitas coisas. Cada vez sei menos quem sou à medida que vejo o que vou fazendo e aceitando. Quer esteja parado ou em viagem. Quero explorar, quero viver, quero ir onde ainda não fui, quero-me dar sem ficar. Tenho um “quero” demasiado vivo dentro de mim, para me deixar ficar com o que já aprendi. Seria tão fácil dizer o que não gosto ou o que não me deixa feliz, mas quem se limita ao que sabe, não se abre ao que o futuro lhe reserva. Então que seja o que o destino quiser. Supostamente e segundo o projecto, já estou um ano atrasado para fazer os 5 anos de world sketching tour. Cada vez que penso nisso da-me vontade de rir pelo que ainda me falta conhecer e por certo perder.

Até já espanha!

Luis

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Comments (3)

  • Clara Amorim

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    Valeu a pena a espera…!
    Obrigada pela partilha de mais de uma estadia inesquecível!!!!
    Zaragoça is waiting…
    Toda a felicidade do mundo para ti…!
    Grande beijinho.

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  • Luis Brantuas

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    Força Luís, a prosa parece um desenho dos seus, muito atractiva e cativante!

    Felicidades para a viagem até Espanha, e bom retorno ao seu périplo.

    Abraço,

    LB

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  • dina

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    até que enfim :) já não vinha há algum tempo, mas já agora :D estamos em julho, não aconteceu mais nada?
    NÃO ACREDITO :) :)
    Boa viagem e muitos desenhos, conheça o mundo e divulgue pelos que não tem essa coragem, eu agradeço

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