Russia

Written by Luis on . Posted in WST

E assim termina uma das mais longas e emocionantes viagens da minha vida.
Foram meses e meses, pela a Europa, com dois jovens de 64 anos, que por sinal são os meus pais. Agradeço a coragem deles, por se terem aventurado comigo e hoje sabermos apreciar o tempo de outra forma. Nunca imaginei que depois de 32 anos, a vida dava-nos uma nova relação. Guardarei para sempre momentos como os que nos rimos por coisa nenhuma e como as pequenas coisas transformaram a viagem em momentos únicos. Momentos em que nos esquecemos dos medos e juntos superamos as dificuldades. Momentos em que a minha mãe me abraçou, com o aperto de me ver partir. Momentos em que os conselhos do meu pai já pouco faziam sentido e demos coragem para o futuro das nossas vidas. E no topo disto tudo, sei que ficámos mais perto da simples felicidade e que a felicidade fica-nos agora mais distante. Sem data nem destino marcado.
Aí vou eu, a pensar que daqui a uns meses, vai custar a valer não os conseguir ver ao final de cada dia.

Viajar pela Europa fez-me conhecer o continente onde nasci e cresci, de uma forma mais ampla. Não me fez valorizar, nem mais nem menos o meu país, mas fez-me pensar muitas vezes que podia ser diferente. Hoje, confesso, que me sinto mais europeu que português. Identifico-me com a educação holandesa, a descontração finlandesa, a afectividade italiana, a ingenuidade dos países bálticos, a amizade francesa, a hospitalidade espanhola, o sorriso sueco, a pontualidade alemã e a comida portuguesa.

Seria um crime, contrariar o que mais profundo me tocou e me fez ser hoje uma pessoa diferente, na forma como aprecio e generalizo o conhecimento adquirido. Quanto mais viajo e conheço o mundo, mais vontade tenho de continuar e a dias de começar a minha aventura pela Sibéria, há um frio no estômago, como se agora tivesse a começar. É inexplicável a sensação que vivo neste momento. Vou finalmente largar o livro “Europa” e desbravar caminho sozinho pela Ásia.

 

Russia

A Rússia

A minha entrada na Russia começou por São Petersburgo. Apaixonei-me pela cidade e pelas saias curtas das raparigas. É enevitavel não reparar. O melhor da cidade é sem duvida percorrer os canais, viajarmos no tempo sovietico pelo metro e ficarmos até às tantas a ver o pôr do sol. Tive a sorte de ter conhecido pessoas que me ajudaram e claro, tudo fica mais simplificado. Porém nem tudo foi fácil, grande parte das vezes que usei os serviços estatais perdi algum tempo até descortinar onde troco os bilhetes do comboio, ou onde fica a estação, acompanhado de algumas caras pouco amáveis. No entanto, são momentos de conversa deliciosos. Pergunto em inglês e a resposta chega em russo e em caso de perguntar duas vezes, a resposta é igual, só muda para um tom mais elevado. Deixando claro que o meu problema é surdez e não o idioma.
Todos me faziam temer o mau humor russo e a sua inospitalidade, mas verdade seja dita, a minha viagem foi incrivelmente brilhante. Leva-me a pensar, depois de tantos avisos e ajudas para “sobreviver” na russia, que qualquer um que se aventure por estas bandas só precisa mesmo de ter alguma paciencia e abertura para saber ler os outros, mesmo que pareçam carrancudos.

Nesta minha viagem, não esqueço como fui abençoado pela genorozidade de caras que conheci e desde ai formei um carinho especial. Nao esqueco os vestidos apertados na cintura que prendem o olhar. Da forma envergonhada com me pediam desculpa por não falar inglês, como se eu fosse um nativo inglês! E de chegar a pensar que era gajo para viver e apaixonar-me por esta gente, cujo coração bate de forma identica à dos portugueses. Das monumentais cupulas, das mais belas igrejas ortodoxas que alguma vez vi em toda a minha vida. Da boa comida e da felicidade com que me viram experimentar os pratos tradicionais, muitos deles preparados à minha frente.

 

 

Russia

O sonho Siberiano

Viajar, dias a fio, num comboio é das melhores viagens do mundo. O efeito é retardado mas quem a faz sente-se diferente.
- Irkutsk? pergunta-me a “babusca” (avózinha em russo) chefe da carruagem.
- Sim! digo eu. Indica-me o numero da cama e diz-me que existem mais 3 estrangeiros para conversar. Seria a primeira viagem com companhia de europeus. Passo o corredor, vejo um asiático e muitos russos, nada de europeus, perguntei-me se estaria na carruagem certa. Confirmei o bilhete e pousei a mochila junto à minha cama.
- Irkutsk? pergunto eu ao asiático.
- Sim! como é que sabes?
- A babusca disse-me que havia mais malta estrangeira a bordo.
- Sim, mais um francês e um belga que nao estão aqui.
Fazia sentido agora.
- Boa, vamos ter muito tempo para nos conhecer. Vou fazer a cama.
Digo isto e ao virar-me para a minha cabine, deparo-me com uma senhora a estender os lençóis na minha cama. Fiquei estufacto. Olhou-me com um sorriso e gesticulou “contínua a conversar”. Mal sabia eu que a minha historia no transsiberiano, iria mudar graças ao coração desta mulher de poucos musculos, cabelo escuro curto e rosetas saloias em cada bochecha.
- Muito obrigado, não era mesmo preciso.
Ela sorriu outra vez e repetiu o gesto. Existe muita genorosidade neste fabuloso país, pensei. Obeservei de longe enquanto falava com o Chinês. Viaja com o filho que dormia na cama paralela com a minha e se aquela mãe tinha filhos, este era um deles. O puto era a cara chapada da mãe, o que lhe dava um toque meio larilas. Embora que aos 16 anos muitos andam a abrir gavetas e portas de armários para ver se cabem la dentro, este tinha ali qualquer coisa que me fazia temer pelo pior. Este país é bastante conservador para aceitar certas diferenças, em especial homosexuais. Na minha cabine ninguém falava inglês, portanto foi o jogo dos gestos e adivinhas o tempo todo que quisemos ter uma conversa.

A magia da viagem começa quando a noite cai e os carris embalam os sonhos. O filho adormeceu com o livro na mão. No andar debaixo o homem ressona. A mãe já dorme e aos meus pés, as duas velhotas, dormem pelo menos à uma hora. O silêncio nocturno realça o bater do coração da máquina encarrilada. A cada 8 horas o fuso horário mudará para mais uma hora. Movemo-nos em compasso binário com uma suave cadência de tranquilidade. A cada segundo sinto o choque dos caminhos de ferro, que se propagam pela carruagem e balançam os corpos.

De manhã comprimentamo-nos, tomamos refeições juntos, partilhamos comida e observamos os hábitos de cada um, sendo eu o centro das atenções. Uma boa chavena de café acompanha a viagem, enquanto observamos pela janela, empoeirada, o girar do sol. À medida que o comboio fica mais perto do destino, as carruagens vão perdendo personalidade, tornando-se mais tristes. Foram dias partilhados em família e como qualquer familia, custa ver partir.
- Toma este livro, Luís. Relata a vida de um homem que queria descobrir o mundo. É muito antigo, mas quando me contaste a tua história de vida, parecia que o livro tinha ganho vida.
- Mas está todo em Russo! Vou levar imenso tempo a ler…
- Tu tens tempo! Bom, vou sair na próxima estação, foi muito bom conhecer-te, és uma grande pessoa e como mãe, ficaria orgulhosa se tivesse um filho como tu.
- Ah vá lá, não é preciso isso. Obrigado pela humilde amizade que vivemos estes dias. Façam boa viagem!
- Tu também e tem muito cuidado!
Sentei-me e vi-os parti de malas ao colo até ao fim do corredor. “Até já… é pá, espera, não tiramos uma foto juntos.” pensei. Corri até à porta e lá estavam eles. O filho assim que me vê, assusta-se e tenta avisar a mãe que estou ali. A mãe chora aos seluços. Olha-me e sem nenhum constrangimento, abraca-me.
- Luís…
Diz ela emocionada. Eu estava na curva, sem reacção. Ela, com a voz molhada diz-me:
- …tenho tanto medo da tua viagem e custa-me muito ver-te partir, és como um filho para mim que nunca mais vou voltar a vê-lo…
O filho coloca a mão no ombro da mãe, amparando a dor e olha para as malas. Não me consegue enfrentrar os olhos.
- Vai correr tudo bem, não há motivos para ter medo. Vamos antes tirar uma foto para levar comigo nas mochilas!
- Vou ficar com olhos de choro na foto…
- Estamos na Sibéria, faz tanto frio que nos mete a chorar, certo?!
Sorrimos os três mais leves para a foto.
O comboio pára e a “babuska” abre a porta da carruagem. Despedimo-nos mais uma vez, já cada um na sua plataforma. Do comboio aceno adeus e da estação, com malas e lenço nas mãos vejo-os partir. Sigo em silêncio para a minha cama. O vazio da cabine espelhava o meu peito e as lágrimas eram agora livres para se despedirem. Tenho a certeza que o transmongoliano de Junho de 2013, marcará para sempre as nossas vidas.

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Comments (1)

  • Clara Amorim

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    Viva, Luís!
    Bem-vindo a este fantástico site, depois de 6 meses e 11 dias de ausência!
    Já estávamos com saudades destas longas e emotivas crónicas…!
    Volta sempre!!!
    Beijinhos.
    Clara

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