The side of comfort | O lado do conforto

Written by Luis on . Posted in Europe Trip, Memories, WST

My parents’ arrival to the final trajectory of my personal odyssey felt like celebrating Christmas in February. They brought codfish, olives, cabbage, oranges, custard pastries, strawberries with cream, shrimp with mayonnaise, toasts with salted butter and cerelac… we spent the day eating. Watching me eat, my mother looked concerned, yet happy. My father, however, was not worried: “have you been starving or what?!”

With all the playful banter, I asked myself what being hungry really meant. Do we all feel hunger differently, or is hunger always just hunger and that’s it?


A recém chegada dos meus pais ao trajecto final da minha odisseia pessoal, foi como festejar o Natal em Fevereiro. Trouxeram bacalhau, azeitonas, couves, laranjas, pastéis de nata, morangos com natas, camarões com maionese, tostas com manteiga salgada e cerelac… foi comer o dia todo. O ar de felicidade, preocupado, da minha mãe, que me via comer e o meu pai, aparentemente despreocupado: «tens passado pouca fome, tens!»

No meio da brincadeira, perguntei-me: mas o que é ter fome, afinal? Poderá ser a fome sentida de maneira diferente por cada um, ou fome é fome e não se fala mais nisso?

 

parents in the camper

For a while now, I keep hearing “man, you’re thin!”, always said in a sad and alarming tone.

If I’d be laying in a hospital bed, connected to an intravenous drip, I could even understand that “you’re so thin”. Then I’d probably be in trouble, but as I’m not, I keep trying to explain.
I did not fill my backpack with that typically Portuguese table, loaded with excesses.
Nomadism throws me into a different lifestyle, which also means different eating habits. I’ll only eat when I’m hungry, and I’ll only spend money on the bare essentials. If I don’t have food every time I feel like eating, that doesn’t mean I’m starving. On the other hand, that control has made me less demanding and able to get happy with the little I can get.
Anyone could call that starving, but to me that’s more of a start to my adventure.
I found different eating habits, without having to take too much in, ways of making different choices and ways of cooking quickly with little ingredients, avoiding to eat everything I might feel like.
Then a smile will always be a smile, whether I happen to get plenty, or just a cold plate of food.
Even with hunger, happiness comes when I get to share some of what I have.
“That pasta was awful, right?”
Without even noticing, we quickly get used to comfort and to anything that won’t require much work.
Specially if we’re within what I call a system.
The system is what makes think by the rules, and just go along with the crowd.
That’s what I thought as soon as I put my backpack down in the camper van.
I had a bed just for me, two closets for my clothes, a toilet, and food made by mom.
The system was set. Who would prefer to freeze, carry backpacks around, and be constantly looking for a place to sleep?
I would! That’s what makes me live free and without limits.
But take it easy. Let me enjoy this moment for a while. After all I’ll have enough time to go through what I want and what I don’t want.

Then along came the second question.
What are the ingredients to a happy life, if what you really wanted was just a nice meat sandwich?
I’ve tried finding an answer with the many backpackers I already met. What’s the key to survive for months on end far from home, (for those who have one)?
Grabbing a backpack and wandering off without a set route may be fun for a few months, but after that, living just with the bare essentials, the first questions start to pop.
Taking a trip alone requires a gradual acceptance of who we are and of what we learn from others.
We’ll be meaningless enough to not be noticed by anybody if we get lost in solitude.
But if we choose that, we won’t be but loners trapped in our own worlds.
What’s a trip for if we keep isolated from knowledge?
It’s surprising to realize that for many backpackers, taking life as it is means not always counting on help, risking danger and never stopping.
Many will find only a part of this is true. Others, like me, will take it as a basis to guide instinct.
Going on an adventure with company does not mean we won’t get to learn all this, but the constant sharing and exchanging of ideas will make the experience less personal.
It will just turn everything into a process of sharing things learned together.

On route to Montpellier – February 18th, 2013
Translation by Helena Palha 

 

Há muito que me dizem: “é pá, estás magro!” sempre com aquele tom de alarme, entristecido. Até era capaz de perceber se estivesse agarrado a um saco de soro numa cama de hospital e me dissessem “estás tão magro”. Aí sim, era capaz de estar lixado… como não estou, lá tento explicar. Aquela mesa tão típica portuguesa carregada de excessos, não veio na mochila. O nomadismo atira-me para uma forma diferente de viver e alimentar-me. Só como se tiver fome e só gasto o essencial. Se não tenho comida sempre que me apetece comer, não é sinal de passar fome. Diria por outro lado, que esse controlo alimentar, baixou os níveis de exigência e aumentou o contentamento perante o pouco que às vezes tenho. Mas isso é passar fome, podem-me dizer vocês. Ao que eu respondo, isso é apenas o inicio da minha aventura. Descobri outras formas de me alimentar sem ter de comer muito com diferentes escolhas e cozinhar rápido com pouco, evitando comer tudo o que me apetece. O sorriso esse, perante abundância ou um miserável prato frio, será sempre o mesmo. Mesmo com fome a alegria chega no momento de partilhar um pouco do pouco que me pertence: «maldita massa que estava uma treta, não achas?!»

Sem dar conta disso, o Homem habitua-se depressa ao conforto e ao que dá menos trabalho. Especialmente se estivermos metidos naquilo a que eu chamo de sistema. O sistema, é o meio que nos leva a pensar dentro de regras e a ser mais um na carneirada. Foi isso que concluí assim que pousei a mochila na auto-caravana. Tenho uma cama só para mim, dois armários para a minha roupa, uma casa de banho e comida feita pela mãe. O sistema está montado. A isto tudo, quem é que pode dizer que prefere andar a passar frio, carregado com mochilas e sempre à procura de um tecto para dormir. Digo eu! É isso que me faz viver sem limites e livre. Mas calma, deixem-me viver este momento por uns tempos, até porque vou ter tempo de andar como quero e não quero.

Depois, veio a segunda pergunta. Quais serão os ingredientes para se viver feliz, justificando assim, que o que mais se queria era uma bela bifana no pão? Tenho procurado, entre os vários mochileiros que já conheci, qual é o manual de sobrevivência para meses a fio longe de casa (para quem a tem). Pegar na mochila e ser vagabundo sem rumo, pode ser giro durante uns meses, mas feito isso e a viver só com as necessidades básicas, as primeiras questões internas aparecem. Fazer uma grande viagem sozinho requer uma aceitação gradual do que somos e do que aprendemos com os outros. Seremos insignificantes o quanto baste para que ninguém nos veja, se nos perdermos pelo caminho da solidão. Mas mesmo que queiramos isso, seremos uns bichos do mato se nos fecharmos no nosso mundo. O que é então uma viagem se é para andarmos isolados do conhecimento. É surpreendente perceber que, para muitos mochileiros aceitar a vida como ela é, significa: não viver à espera de ajuda, correr perigos e nunca ficar parado. Para muitos, isto pouco será verdade, para outros como eu, é a matriz que nos guia o instinto. Uma aventura acompanhada, não invalida que não se aprenda tudo isto, mas a constante partilha e troca de ideias, tornará a experiência menos pessoal. Será principalmente uma partilha de conhecimentos e aprendizagens adquiridas em conjunto.

A caminho de Montpellier – 18 Fevereiro, 2013

Luis

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Comments (2)

  • Clara Amorim

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    Obrigada, Luís, por mais esta lição de vida!!!
    Um belo texto para reflexão…!

    Beijinho e continuação de boa viagem!

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  • helena falcão

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    FANTASTICA PARTILHA!…OBRIGADA…MIL VEZES!…

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